ABEC ensina português às crianças de Zurique e região

Há quatro anos a história do ensino de língua portuguesa para crianças no cantão de Zurique dentro do HSK (Curso de Língua e Cultura Materna) tomou outro rumo. Com a reestruturação do CEBRAC (Centro Brasileiro de Ação Cultural), que coordenava essas atividades até então, foi preciso formar um outro grupo para levar adiante o trabalho. Assim surgiu a ABEC (Associação Brasileira de Educação e Cultura). A atual presidente, Arlete Baumann, contou ao CIGA-Informando um pouco sobre o trabalho desenvolvido.

Tudo começou no dia 13 de abril de 2002, às 18 horas, com uma reunião da equipe de professoras do CEBRAC e alguns pais de alunos. O objetivo do encontro era fundar uma associação que pudesse assumir a organização e administração do Curso de Língua e Cultura Materna (HSK), uma vez que o CEBRAC, que coordenava o trabalho, iniciava naquela altura uma completa reestruturação de suas atividades.

Dois meses depois, no dia 29 de junho de 2002 realizou-se a reunião extraordinária dos associados do CEBRAC para aprovar a transferência da responsabilidade pelo HSK para a ABEC. Desta forma nasceu a ABEC. Jovem e ao mesmo tempo cheia de experiência, tendo como primeira presidente Dinorá Madeira. Eleita por unanimidade pelas colegas, Dinorá, com todo seu entusiasmo e dinamismo foi o motor propulsor na fase inicial da nova associação. A nova associação começou sem trabalho cheia de vida e totalmente dedicada ao ensino da língua e cultura brasileira aos jovens e crianças com afinidades com o Brasil. Este foi o objetivo inicial e tem sido a meta e motivação do grupo até hoje.

Em termos de estrutura, a ABEC é uma associação sem fins lucrativos, que se sustenta através das taxas de associados, taxas semestrais pagas pelos pais e através da realização de eventos, como a tradicional festa junina, em Winterthur.

A diretoria atual da associação se compõe de 7 membros: Ivana Bammatter, Miriam Vizentini, Markus Baumann, Jacqueline de Brida, Monica Rohner, Sandra da Silva e Arlete Baumann, como presidente. Como parte integrante da diretoria temos a Equipe Pedagógica (Sandra da Silva e Jacqueline de Brida), sob a coordenação da professora Miriam Vizentini, que também representa o grupo na Comissão Pedagógica no setor de pedagogia intercultural do cantão de Zurique.

A coordenação escolar está sob responsibilidade de Arlete, o que significa, além da administração escolar e trabalhos de secretaria, manter contato com as respectivas secretarias cantonais de educação e outras autoridades escolares suíças. Na parte administrativa/financeira contam com o apoio de Ivana Bammatter, Monica Rohner e Markus Baumann. Na hora dos eventos, todo mundo trabalha! Seja da diretoria, do corpo docente ou quadro de voluntários!

Classes e locais diversos

As aulas são ministradas nas dependências das escolas da rede pública, normalmente nos horários livres dos alunos, por exemplo, quarta-feira à tarde. As escolas colocam as salas de aula gratuitamente à disposição da ABEC, assim como, na medida do possível, material escolar como cadernos, papel para cópia, etc. Arlete frisa o "na medida do possível", pois hoje em dia "o tenor em todos os departamentos é economizar, e nós acabamos às vezes tendo que levar o próprio material".

Na foto que mostra a professora Iara, da Escola Schönengrund em Winterthur, dá para notar que se trata de uma sala bem equipada, clara e aconchegante. "Não foi sempre assim!", explica Arlete. "Já tivemos que começar no porão, em salas absolutamente inadequadas. Só depois de muita luta, conseguimos salas melhores", afirma.

No momento, a ABEC conta com cerca de 180 alunos matriculados, dos quais 160 estão assistindo regularmente ao curso. Outros 30 ainda estão na lista de espera, ou aguardando que inicie um curso nas proximidades de sua residência. Para o próximo ano letivo já há 30 inscrições novas, sem contar as turmas em planejamento na região de Zug/Luzern.

Corpo docente especializado

Para fazer parte do corpo docente da ABEC, o professor precisa ter curso superior na área de pedagogia ou letras, além de dominar ou ter bons conhecimentos do idioma alemão, para poder participar do curso obrigatório sobre o sistema escolar suíço e para poder se comunicar com os professores/pais suíços.

Os professores passam por uma entrevista com a presidente e depois por uma entrevista com a equipe pedagógica. Após terem recebido a orientação inicial da equipe pedagógica e iniciado o trabalho com a ABEC, passarão pelo crivo da Secretaria de Educação, em forma de entrevista e teste de alemão. "Nós oferecemos a possibilidade de trabalhar em uma equipe competente, a possibilidade de participar de cursos de extensão para professores HSK, na Escola Superior de Pegagogia de Zurique", conta Arlete.

Como ajuda de custo os professores recebem CHF 30.- por aula dada. Com uma carga horária de 2 a 6 lições por aula dada, é claro que não se trata de um emprego, um ganha-pão, reconhece a presidente. "O professor que quer trabalhar conosco deve, além de tudo, ter consciência de que ele não vai apenas dar aula, mas se engajar em um projeto, que exige muita dedicação, muita perseverança e idealismo. O resultado, porém, falo da minha experiência de anos como professora HSK, é muito gratificante", enfatiza Arlete.

Bons e maus momentos

Nesses quatro anos já se somaram muitos bons momentos na opinião da presidente. "As festas geralmente são os melhores momentos: Alegria, confraternização, badalação, quem não gosta?", brinca. Ela comenta que o trabalho na área do ensino não é um trabalho espetacular, não é um trabalho que “dá ibope”. Trata-se de um trabalho de educação, contínuo e constante, semana após semana. "Como fruto deste trabalho, por exemplo, a turma da professora Miriam ganhou um prêmio de redação do Cantão de Aargau em 2004! Não é fantástico?", conta Arlete satisfeita. Isso demonstra que os cursos têm respaldo no meio suíço. Arlete acredita que o reconhecimento dos cursos pelas Secretarias de Educação dos cantões de Zurique, Aargau e Thurgau foram momentos importantes.

Mas, como tudo na vida, também os momentos críticos aparecem de vez em quando. Para a ABEC um ponto crítico é a alta rotatividade dos professores. As exigências da Secretaria de Educação são enormes e, enquanto para algumas professoras essas exigências transformaram-se em desafio e estímulo, para outras a pressão em aprender ou aprimorar o alemão é muito forte e elas acabam desistindo. Arlete conta que isso já aconteceu algumas vezes e elas tiveram de afastar a professora. "Foi um dos momentos mais críticos e tristes que já vivenciei", confessa.

Profissionalização

Como o número de alunos vem crescendo a cada ano que passa, e com todo o reconhecimento das autoridades suíças e ultimamente do Consulado e Embaixada do Brasil, Arlete acredita que o grupo está no caminho certo. "Esta é a parte positiva", diz ela. "O lado negativo é que o trabalho da ABEC, sendo um trabalho voluntário, exige demais de todas as pessoas envolvidas. O ideal seria a profissionalização deste trabalho, que ele fosse reconhecido e pago pelo governo brasileiro, como no caso de Portugal e outros países" enfatiza a presidente.

Enquanto isso não acontece, o grupo segue em frente, realizando atividades para divulgar seu trabalho e incentivar outras pessoas a participarem. Na semana de 22 a 26 de maio, por exemplo, será realizada a “semana de portas abertas da ABEC”. Durante esta semana as 20 classes estarão abertas ao público. A lista dos cursos em andamento, dos próximos eventos, bem como outras informações podem ser encontradas na homepage www.abec.ch. A secretaria da ABEC (endereço abaixo) está aberta ao público nas terças e quintas-feiras, das 9 às 13 horas. Contatos pelo telefone também podem ser feitos nos mesmos dias.

Endereço postal e de contato:

Texto de Arlete Baumann, com edição de Irene Zwetsch - CIGA-Informando 39, Março 2006