Modelo, topógrafa, atriz, administradora, criadora de máscaras....
Eva Souza é uma mulher de mil facetas
Nosso povo é artista por natureza, afirma Eva de Souza, que usa seu talento também na criação de máscaras e para desvendar os universos pessoais que cada um esconde atrás delas. Em entrevista para o CIGA-Informando, ela nos conta um pocuo de sua trajetória.
Você é uma artista que atua em vários campos. Afinal, qual é sua formação?
Minha carreira profissional iniciou com um curso profissionalizante de Modelo e Manequim realizado no Senac de Salvador aos 15 anos de idade. Aos 19 me formei na Escola Técnica Federal da Bahia em Pontes e Estradas, hoje conhecido como Topografia. Paralelamente participei de cursos de dançaa, teatro e fotografia.
Em 86 mudei para o Rio de Janeiro, onde fiz uma formação em Terapia Corporal com o Fisioterapeuta francês Sergy Pierot, especialista na Técnica de Alexander. Isso me deu uma nova percepção de meu corpo e de minhas potencialidades.
Eu 95 me formei em "Schauspiel und Pantomimeausbildung", em Berlim (Alemanha), curso que foi reconhecido pela Universidade Federal da Bahia em 1999 como "Curso Superior de Interpretação Teatral". Na medida em que fui desenvolvendo outros projetos, fui fazendo novas capacitações nas áreas de artes e de administração. Este ano iniciarei um programa de dois anos de Mestrado na Universidade de Basel em Kulturmanagement.
Você já brincava de atriz desde pequena, participando dos teatros da escola ou na vizinhança?
Sim. Desde criança eu atuei em peças de teatro de grupos livres e grupos de animação. Estudei três anos na Escola Técnica Federal da Bahia e lá participei, durante esse período, do Grupo de Teatro Amador.
Quando você descobriu seu talento e optou em ser artista?
Ser artista para mim não é uma opcão. Eu sempre fiz arte e acho que nosso povo é artista por natureza. O que no teatro se chama de improvisação, com a prática se torna arte. Hoje eu experimento outras artes que eu não aprendi na escola, mas que se desenvolveram a partir da convivência com o meio e com a minha curiosidade.
Além de atriz, você também trabalha com máscaras. Como começou esse trabalho e o que você faz exatamente?
Minha mãe me disse que quando eu era criança tudo que eu desenhava tinha caras muito expressivas, quase estranhas. Eu sonho com máscaras e procuro expressá-las por meio de vários tipos de material. Na Bahia temos muitas festas com máscaras: o Zambiapunga, o Capa Bode, a Careta, o Mandu e muitas outras com mais variadas expressões e referências culturais. Nossas raízes negra e indígena deixaram suas máscaras para perpertuar as culturas que ainda existem em alguns lugarejos do Recôncavo e do Litoral Sul da Bahia e em algumas regiões do Brasil.
Eu estudo o universo das máscaras em vários aspectos: desde o social e o cultural, até o aspecto emocional. Elas se manifestam em nossas vidas em diversas formas e são mutantes, dinâmicas e necessárias.
Em meus grupos de trabalho eu desenvolvo um ambiente lúdico onde as pessoas podem expressar sua mitologia individual. Através destas imagens que apenas elas conhecem, se expressa também a identidade. Esta pode ser expressa por meio de material, conduta, gestos, emoções e cores.
Onde você trabalhava no Brasil e como você veio para a Suíça?
Eu voltei a morar no Brasil entre 98 e 2005 e passei por vários grupos onde eu experimentei este trabalho. Fui professora na "Pracaum - Escola Profissonalizante de Músicos de Rua", fundada por Carlinos Brown no bairro do Candeal, onde trabalhamos um modelo de ONG -Escola e Projeto Sócio-cutural. A partir deste recomeço, criei minha própria empresa, a "Casa das Máscaras Ltda", que tinha características semelhantes em aspectos sócio-culturais, porém com o objetivo de divulgar as culturas de máscaras na Bahia e promover a capacitação de jovens na área de reciclagem.
Paralelamente participei de projetos sócio-educativos, também através de Fundações. Vim para Suíca em junho de 2005 com o objetivo de estudar e desenvolver minha formação em Intercâmbios Culturais e aprender línguas.
Você já trabalhou também em outros países?
Sim, de 1991 a 1997 eu morei na Alemanha, onde trabalhei como atriz em grupos Internacionais de Teatro como o "Windspiel" Escola e Companhia Internacional de Teatro, sob a direção de Niksa Eterovic, da Coácia. Fiz parte da Companhia de Mímica e Teatro "Bombon rapid", sob a direção de Carmen Luna, da Espanha. E em 2002 fui convidada a fazer parte da Companhia "Ikaron Theater Berlin", sob a direção de Carlos Medina, do Chile, na peça Exotopia.
Trabalhei em projetos de Integração Social em várias casas de cultura: Werkstatt der Kultur, em Berlim, Haus der Kulturen der Welt, em Berlim, Brandenburgisches Haus der Kulturen "Al Globe" e "Hans Otto Theater2, em Potsdam.
Qual foi o trabalho mais importante na sua carreira?
O trabalho mais importante para mim nem sempre é aquele onde a gente recebe mais reconhecimento, seja ele social ou econômico, mas sim aquele onde a gente investe maior energia e luta para que ele aconteça. A direção da Casa das Máscaras foi para mim um grande desafio em muitos aspectos, principalmente em lidar com um público que precisava muito de mim. Além do envolvimento profissional, eu me senti muito mobilizada emocionalmente com aqueles jovens e pude aproveitar para conhecer nossas particularidades e necessidades como brasileiros.
Qual o mais difícil?
Para mim é dificil estar entre estas culturas e ser aceita. É difícil viver estas diferenças sem deixar que elas interfiram na vida da mulher, da mãe e da cidadã.
Existe discriminação no mundo cultural? Como seu trabalho tem sido recebido na Europa?
Meu trabalho tem boa aceitação porque ele promove comunicação. Eu abro as mentes e os corações para a gente se entender melhor. Mesmo que seja apenas por alguns momentos. Este trabalho eu fiz com os índios Pataxós, com as crianças dos bairros periféricos de Salvador, com adultos em escolas e empresas na Bahia, com jovens da Alemanha, da Áustria e da Suíça. Em todos estes grupos existia descriminação e acredito que este trabalho ajudou estas pessoas a olharem para isso como para uma “máscara”.
Quais são seus planos para 2006?
Estou iniciando um Mestrado e promovendo cursos sobre Máscaras e Cultura Afrobrasileira. Participo do programa Kultur und Entwicklung (www.coordinarte.ch), o qual divulga meus workshops em escolas na Suíça. Estou planejando uma exposição de máscaras para janeiro de 2007 e procurando espaços de atuação. No momento minhas máscars podem ser vistas no ATELIER Pe, na Güterstr. 50, em Bern. Aqui é um novo território, onde estou aprendendo muito sobre as culturas que aqui convivem e sobre suas máscaras.
Dê-nos seu contato.
Eva de Souza
Melchtalstr 28
3014 Bern
Tel: 031 331 72 81 ou 078 68 62 275
E-mail: evasouza@bluewin.ch(Irene Zwestsch) - CIGA-Informando 41, Julho 2006