Tradução faz a ponte entre culturas distintas

Professora, tradutora, viajante, migrante atenta ao mundo que a cerca e empenhada em fazer a ponte entre mundos lingüísticos diferentes, encurtando distâncias entre as culturas. A gaúcha Fabiana Macchi conversou por E-mail conosco para falar sobre seu trabalho e a publicação no Brasil de uma de suas mais recentes traduções.

1. Em dezembro de 2004 foi lançada no Brasil a versão em português do livro "Warum das Kind in der Polenta kocht", da autora suíça Aglaja Veteranyi, traduzido por você. Do que ele trata?

O livro conta a história de uma família de artistas de circo que foge da ditadura de Ceausescu, na Romênia, e vem para a Europa ocidental em busca do sonho de liberdade, riqueza, fama e felicidade. Quem nos conta a história é uma menina, filha do palhaço e de uma trapezista. A realidade, porém, se mostra bem diferente do sonho. A menina tenta compreender esta realidade: as outras mentalidades que acaba conhecendo, as condições de vida nos países pelos quais viajam, a situação política na Romênia, a própria condição de ser sempre estrangeira, mas tudo isso da perspectiva inocente de uma criança. Além da história em si, que é cheia de surpresas e cativa o leitor, “Por que a criança cozinha na polenta” se torna fascinante porque nós, leitores adultos, conseguimos desvendar a realidade que está por trás dos relatos aparentemente ingênuos da menina. O livro é extremamente poético, mesmo revelando uma dura realidade.

2. Aglaja era romena e veio na adolescência para a Suíça. Era uma imigrante, como nós. Essa não foi a primeira autora migrante que você traduziu. Por que a predileção por autores com esse perfil?

Não sei se chega a ser uma predileção, mas a emigração é um tema que me impressiona e que está de alguma forma presente na biografia ou nas obras da maioria dos autores que traduzi. Meu primeiro encontro com essa temática foi através de Bertolt Brecht, sobre quem fiz minha tese de mestrado. Brecht era um autor engajado, político, no sentido amplo da palavra, e viveu 20 anos no exílio durante o regime nazista e a Segunda Guerra Mundial. Depois de Brecht, e por causa dele, acabei pesquisando sobre outros autores alemães que partiram para o exílio no mesmo período.

A literatura alemã do século XX é profundamente marcada pela ruptura causada pela II Guerra e pelo exílio. A produção literária dos autores exilados ficou, em boa parte, perdida, espalhada por diversos países. Até hoje pesquisadores e editores procuram recuperar a obra destes autores e, com isso, uma boa parte da história literária alemã deste período sombrio.

Mesmo em autores que ficaram na Europa durante a II Guerra, percebe-se a necessidade de tematizar a ruptura causada pela guerra, de reescrever a própria identidade a partir de novos parâmetros. E talvez seja isso que me interesse mais profundamente, para além da superfície de uma biografia que contenha o elemento deslocamento geográfico.

Por outro lado, acabei traduzindo vários autores da chamada "Literatura Intercultural", uma tendência literária que se desenvolveu a partir da década de 70, inicialmente na Alemanha e depois nos outros países de língua alemã. A função desta literatura feita por estrangeiros era, inicialmente, dar voz às questões e reivindicações dos imigrantes, denunciando a discriminação, registrando o isolamento, o estranhamento, a perda da identidade ou a luta para redefini-la. É claro que estes temas são familiares para quem vive fora do seu país, como nós. Mas a temática não é meu único critério. Escolho os autores conscientemente, pela qualidade literária, por um certo grau de inventividade, pela empatia que sinto com o texto, pela vontade de fazer aquela obra circular entre outros leitores. Traduzi e escrevi, por exemplo, sobre Gino Chiellino, italiano, residente na Alemanha desde 1970, um dos autores da primeira hora da literatura intercultural. Aglaja Veteranyi era um dos expoentes da nova geração desta literatura.

3. Como foi sua história de migração?

Vim para a Suíça há 15 anos para trabalhar na área de comércio exterior, mas não cheguei a ficar dois anos neste setor. O meu negócio era tradução, português, literatura, eu queria fazer uma pós-graduação. Fui parar em Germersheim, no sul da Alemanha, uma cidadezinha com 20 mil habitantes e nenhum cinema, onde fica o maior centro de formação de tradutores dos países de língua alemã e um dos maiores do mundo. Por incompatibilidade dos sistemas universitários, tive praticamente de refazer a graduação, para só depois poder fazer o mestrado. Hoje, com a uniformização dos sistemas universitários, estes trânsitos ficam mais fáceis. Passei anos recolhida, estudando. Tive a sorte de ser bolsista de uma fundação alemã que me possibilitava participar de seminários por toda a Alemanha, viajei muito. Participei de um grupo de estudos de comunicação intercultural com estudantes de várias universidades alemãs e de vários países do mundo, tive a oportunidade de organizar seminários nesta área. Também fiz parte de um grupo acadêmico de tradução literária no qual discutíamos os originais e as nossas traduções. Havia tradutores de nove línguas, incluindo russo, polonês, islandês, árabe e uma língua africana falada na República dos Camarões, além das línguas européias tradicionais. Foi um período extremamente importante na minha formação. Depois do mestrado, passei a dar aulas no Instituto de Tradução e Interpretação da Universidade de Mainz, onde permaneci até 2002, quando, por motivos pessoais, voltei a morar na Suíça.

Nunca pensei em emigrar, palavra que parece tão definitiva. Pensava sempre em morar um tempo no exterior, ver outros mares, estudar. As coisas foram acontecendo, inevitavelmente: onze anos de Alemanha e agora, nesta segunda vez, já quase três anos de Suíça. Não sofro mais choques culturais drásticos e dramáticos, nem aqui nem no Brasil. Incorporei um relativismo cultural que me serve bem. Sinto falta de algumas coisas, claro, da família, dos amigos, de um certo ritmo de vida. Por outro lado, tenho o privilégio de, através do meu trabalho tanto de tradutora como de professora, ter um contato muito intenso com a língua portuguesa e com a cultura brasileira.

4. Pois é, além de tradutora você também é professora. Fale um pouco desse seu trabalho e da sua formação.

Sempre trabalhei paralelamente como tradutora e professora, desde o Brasil, e sempre achei que estas duas atividades se complementam perfeitamente. O trabalho de tradução é mais introspectivo e solitário, enquanto dar aulas pressupõe comunicação, flexibilidade, empatia, requer uma permanente atualização pessoal e profissional. Sou uma professora convicta, adoro dar aulas, acho o contato com os alunos extremamente enriquecedor.

Fiz Letras no Brasil, Português e Inglês, com duas habilitações, em Tradução e em Interpretação, e depois, na Alemanha, Germanística e Tradução e o mestrado em Literatura Alemã. Depois do mestrado, passei a dar aulas na Universidade de Mainz, assumindo as disciplinas de Português Brasileiro e de Prática de Tradução, já que até então a universidade oferecia apenas a Língua Portuguesa em sua modalidade européia. Na Tradução, trabalhávamos com vários tipos de textos, desde técnicos até literários. Realizei com os alunos uma oficina de tradução literária e chegamos a publicar um conto traduzido na oficina.

No ano passado, fui chamada pela Universidade de Ciências Aplicadas de Zurique (Zürcher Hochschule Winterthur) para implantar o programa de Língua Portuguesa no Instituto de Tradução e Interpretação e ministrar as disciplinas correspondentes. Isso significa que, a partir de agora, o Instituto forma tradutores aptos a traduzir a partir do Português, o que até então não existia na Suíça alemã. Isso representa um importante acréscimo à presença do Português nos meios acadêmicos suíços e também uma oportunidade profissional a mais para a geração de brasileiras e brasileiros que cresceram aqui, bilíngües, e se interessam pela profissão de tradutor.

Além de Português e Cultura Brasileira, também leciono alemão para estrangeiros, na Klubschule Migros, em Berna. Tenho alunos dos quatro cantos do globo. No início do curso, quando o pessoal se apresenta e diz de onde vem, às vezes volto para casa e vou direto conferir no atlas a localização exata de um ou outro país: onde é que fica o Cazaquistão, mesmo? É muito interessante.

5. Ultimamente foram lançados vários livros, em diferentes línguas, que abordam o tema migração. Você acredita que essa é uma tendência da literatura mundial, um efeito da globalização?

Bem, nos países de língua alemã - Alemanha, Áustria e Suíça - esta tendência remonta ao período de reconstrução da Alemanha depois da II Guerra e ao período do milagre econômico, nos anos 50, 60 e início dos 70. A partir dos anos 50, chegaram várias levas de estrangeiros para trabalhar nesses países. O escritor suíço Max Frisch sintetizou muito bem a situação: "Chamamos mão-de-obra, vieram seres humanos". Mais tarde, chegaram os refugiados políticos e, depois, os refugiados econômicos. Daí já haviam os filhos dos primeiros, em breve os dos segundos, até chegarmos à situação atual. Na Suíça, por exemplo, de cada quatro crianças em idade escolar, uma é filha de pai ou mãe oriundo de outra cultura. É natural que esta maior permeabilidade entre culturas e fronteiras se apresente também na arte e na literatura, o que eu considero uma oportunidade para ambas. Mas a literatura alemã, e as literaturas em geral, não estavam mais imunes a influências estrangeiras antigamente. As influências se davam apenas de outra forma. Vários gêneros literários que consagraram grandes autores da literatura alemã, por exemplo, eram importados, adaptados, e não genuinamente germânicos.

Hoje você tem escritores usando a língua alemã para registrar um olhar não-alemão sobre o mundo, para falar de temas diversos dos que até agora a tradição literária conhecia. E isso é uma grande oportunidade para a literatura e para a própria língua, de romper os próprios limites, de se renovar. É uma chance para o leitor, de penetrar novos mundos, é uma chance - gosto de acreditar nisso - para o mundo, de dar voz às minorias, de tomar conhecimento de culturas remotas. Essa idéia me fascina. Na verdade, é semelhante à função da tradução, de viabilizar algo que até então seria impossível, de desbloquear o caminho da comunicação. Há um escritor de um povo nômade da Mongólia, por exemplo, que escreve diretamente em alemão. A França registra um fenômeno semelhante, a Itália também. Certamente outros países da Europa também possuem autores de outras culturas escrevendo em suas línguas e ampliando as fronteiras dos seus cânones literários.

6. Que outros autores você traduziu e quais os principais temas abordados?

Traduzi muito Ernst Jandl, um poeta austríaco genial. Jandl faleceu em 2000, aos 75 anos de idade, e pertencia àquela geração de escritores que, na segunda metade do século XX, renovou a linguagem poética. Tenho uma coletânea de poemas que mapeiam toda a sua produção poética e que deve ser publicada em breve no Brasil. Ele utiliza a linguagem de uma forma surpreendente, desenvolve o sentido do poema com recursos visuais e sonoros. Seus temas são a vida, a morte, a solidão, as convenções sociais. Jandl era um crítico veemente dos valores burgueses. Paradoxalmente, ele se tornou muito popular, pois seus poemas também são muito jocosos. Ele fazia leituras acompanhado de músicos de jazz - os ingressos se esgotavam num instante - e atualmente há vários poemas seus em livros didáticos.

Kurt Schwitters, artista dadaísta, é mais conhecido por suas pinturas, colagens e esculturas, mas também escreveu textos - poemas e prosas curtas - muito interessantes. Ele também era um crítico sagaz da sociedade burguesa, da arte bem-comportada, mas acabou se distanciando dos dadaístas por considerá-los aleatórios demais. Para ele o critério estético era fundamental. Publiquei um ensaio sobre ele e vários poemas e textos traduzidos na revista Sibila, editada em São Paulo pelo poeta Régis Bonvicino.

Traduzi vários poemas de Aglaja Veteranyi, além do romance, e tenho muitas traduções não publicadas de diversos autores, de H. M. Enzensberger a Erich Fried, passando por autores da antiga RDA, autores experimentais e outros autores migrantes - como Francesco Micieli, que também mora em Berna.

7. Você já pensou em escrever seu próprio livro, talvez sobre o fenômeno da "Literatura Intercultural"?

A literatura intercultural é um tema imenso e complexo, seria necessário fazer um bom recorte para falar deste fenômeno. Tenho vários projetos na gaveta, quem sabe esse poderia vir a ser mais um. Mas, no momento, estou escrevendo a minha dissertação de doutorado sobre teoria de tradução literária. O tempo é bem escasso. Porém, eu não abro mão de traduzir. Se continuar traduzindo autores migrantes, como pretendo, quem sabe um dia tenha material suficiente e representativo para publicar um volume de amostra desta literatura, sem a pretensão de ser exaustiva, claro.

Quem é Fabiana Macchi

Fabiana Macchi nasceu em Porto Alegre, formou-se em Letras na Ufrgs e trabalhou como revisora, tradutora e professora no Brasil.

Em 1990, veio para a Suíça para trabalhar na Embaixada do Brasil, em Berna, onde permaneceu por dois anos. De 1991 a 2002, morou na Alemanha, onde concluiu o Mestrado em Tradução e foi docente de Tradução, Língua Portuguesa e Cultura Brasileira no Instituto de Lingüística Aplicada e Ciências da Cultura da Universidade de Mainz. Na Alemanha, Fabiana também participou de grupos de estudo e trabalho sobre Tradução Literária e sobre Comunicação Intercultural, organizando seminários internacionais e intercâmbios.

De volta à Suíça, atualmente é professora de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira no Instituto de Tradução e Interpretação da Universidade de Ciências Aplicadas de Zurique, professora de alemão na Klubschule Migros e doutoranda em Teoria de Tradução na Universidade de Mainz, Alemanha.

Tradutora e ensaísta, tem publicado no Brasil traduções e introduções à obra de autores alemães, suíços e austríacos contemporâneos e experimentais. É membro do conselho editorial da revista Sibila de Poesia e Cultura, editada pelo poeta Régis Bonvicino em São Paulo, e participa regularmente de congressos internacionais.

Contatos: fabiana.macchi@bluewin.ch

(Irene Zwestsch) - CIGA-Informando 34, Maio 2005