Cordel de Pernambuco chega à Suíça


José Honório com Irene Zwetsch, em sua apresentação em Basel

Era uma vez um rapaz
Que decidiu escrever
Descobriu que era capaz
E cordelista foi ser...

Assim poderia começar a história do recifense José Honório da Silva, o Cordelista Cibernético, que em setembro fez uma turnê pela Suíça, divulgando a literatura de cordel. Honório se define como “poeta de cordel” e, mesmo não se considerando estudioso, deu uma aula sobre o tema. O autor viajou a convite da amiga Denise Lima, da Associação Raízes, de Genebra, com apoio do Setor de Negócios da Prefeitura daquela cidade. Pela primeira vez fora do Brasil, Honório participou da feira La Fureur de Lire, em Genebra, além de apresentar seu trabalho em Zurique, Bern, Lausanne, Losone, Locarno, Yverdon e Basel. Sua palestra em Basel foi organizada pelo Centro Cultural da Língua Portuguesa e Brasileira.

Segundo Honório, a origem da literatura de cordel remonta aos séculos XV e XVI, quando surgiram na Europa as primeiras histórias de cavaleiros, poemas e canções, levadas de vila em vila por trovadores ou vendedores ambulantes. Desta forma chegaram também às Américas. No Brasil, espalharam-se especialmente no Nordeste, primeiro contadas oralmente e depois registradas em livretos. Os temas, inspirados na Europa, apresentavam princesas, cavaleiros e castelos.

O nome “literatura de cordel” refere-se à forma como os livretos eram comercializados: pendurados em barbantes e vendidos nas feiras. Honório conta que muitos cordelistas tinham uma estratégia interessante. Eles chamavam a atenção do público, contavam uma parte da história e diziam que quem quisesse saber o final tinha de comprar o livreto.

Por muito tempo o cordel foi a única fonte de informação no Nordeste, afirma o escritor. Produzido por “pessoas sem muita letra, o cordel era consumido por gente sem letra nenhuma”, diz Honório. Foi assim que Honório entrou em contato com essas histórias, pois seu avô de 70 anos pedia que o neto lesse para ele. Muitos analfabetos até aprenderam a ler com os versos.

A linguagem utilizada nos livretos incorporou muitos termos nordestinos, conservando porém a estrutura básica de versos e rimas: seis, sete, oito ou dez versos, com rimas alternadas. Essa estrutura também aparece no “repente”, que se diferencia do cordel em função do improviso, da apresentação oral e da origem dos temas, geralmente sugeridos pelo público. “O cordel é uma poesia feita com mais calma, a partir de temas escolhidos pelo autor e circula de forma impressa”, explica Honório. Outra marca do cordel são as xilogravuras que passaram a ilustrar as histórias e hoje são identificadas com elas.

Como tudo na vida, o cordel teve de se adaptar aos novos tempos. Em função da concorrência com a televisão e dos altos custos de impressão, partiu-se para a utilização do computador e das fotocópias para viabilizar pequenas tiragens. Honório ganhou o apelido de “cordelista cibérnetico” porque foi um dos primeiros a usar o computador e a internet na divulgação do seu trabalho. Junto com Américo Gomes, do Pará, fez a primeira “peleja virtual” de repentes e seu próximo passo será fazer uma “peleja online”.

Mesmo apaixonado pelo cordel, Honório reconhece que não dá para viver disso. Ele é bancário e dedica-se a escrever nas horas vagas. Mesmo assim já tem 40 livretos publicados desde que começou a escrever, em 1984. “Alguns ainda estão na gaveta e outros na cabeça”, diz o autor, que ganhou um Concurso de Cordel sobre Lampião e tirou o terceiro lugar em outro.

Engajado na defesa e na divulgação do cordel, o autor criou, juntamente com outros cordelistas, a União dos Cordelistas de Pernambuco. Seu objetivo é viabilizar a publicação das obras e abrir espaço para a divulgação, por meio de recitais com música. Dentro do espírito de formar novos leitores, Honório investe tempo no trabalho com escolas, estimulando professores a estudar as poesias com os alunos. A participação em diversos eventos também dá resultados. Os cordelistas pernambucanos abriram a programação oficial de São João no Recife, por exemplo, e pretendem partipar ainda na Bienal do Livro.

No meio acadêmico o cordel também conquistou espaço e já existem estudos sobre o tema, como a Gramática no Cordel, de Janduhi Dantas (PB). Vale dizer que embora bem mais profissionalizados, muitos livretos de cordel ainda são escritos por pessoas de pouca instrução formal e apresentam erros gramaticais. Por essas e outras continua atual a definição do cordel feita pelo professor francês Kantel: “é uma poesia narrativa, impressa e popular”.

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(Irene Zwetsch) - CIGA-Informando 37, Outubro 2005