Entrevista com Mariana Brasil

“Entre as Fronteiras” desvenda os caminhos da prostituição

Ficção e realidade são universos que se cruzam e por vezes se confundem. Ao lançar seu livro “Entre as Fronteiras”, Mariana Brasil traz à tona a história real sobre a prostituição, que inspirou a última obra de Paulo Coelho, “Onze Minutos”. Embora baseados nos mesmos relatos, os dois manuscritos guardam uma diferença fundamental: Mariana viveu na pele as situações que descreve e, segundo ela, não foi nenhum “Conto de Fadas”.

A musa inspiradora de Paulo Coelho nasceu no interior de São Paulo e aos 17 anos conseguiu realizar o sonho de ir para a cidade grande. Sonia, nome verdadeiro de Mariana Brasil, tem hoje 37 anos, mora na Itália e trabalha na empresa do ex-marido. Sua vida se divide entre a casa e o trabalho e em nada lembra as noites turbulentas da época em que trabalhou na noite.

O início de sua trajetória, segundo Mariana, “foi igual a tantas outras... uma moça que vem do interior para a grande São Paulo, se apaixona, fica grávida, percebe que o mundo não é tão cor-de-rosa como sonhara”. Da primeira desilusão para a entrada na prostituição foi um passo. Na conversa com as colegas de rua, alguém lhe falou da Europa e de como as mulheres brasileiras faziam sucesso por aqui. Mariana resolveu tentar a sorte. Conheceu um italiano, casou e partiu com ele para a Itália, realizando dois sonhos: o casamento e a vinda para a Europa de forma legal. Mesmo depois de casada, Mariana continuou trabalhando por alguns anos como prostituta, com a tolerância do marido.

Um paraíso chamado Suíça

Em 1993 Mariana pisou pela primeira vez em solo suíço. “As amigas me falavam de locais de trabalho, até o dia em que obtive um endereço e tudo começou”, relata. A necessidade financeira impulsionou sua decisão de continuar na prostituição e tentar novos horizontes. No vaivém entre a Suíça, onde trabalhava de segunda a sexta em diversas cidades, mas principalmente na Langstrasse, em Zurique, e a Itália, onde estava seu filho, passaram-se três anos. Enquanto trabalhava, Mariana mantinha uma baby-sitter que se ocupava do menino, hoje com 17 anos.

As dificuldades do percurso são muitas e diversas, afirma Mariana, “dependendo sempre do nível do local de trabalho”. O pior para ela, no entanto, foi a clandestinidade. Era desgastante trabalhar na Suíça ilegalmente e ser mandada de volta para a Itália sempre que a Polícia a descobria.

No meio da prostituição, segundo Mariana, existe muita concorrência, mas também foi ali que ela conheceu “pessoas maravilhosas, cuja amizade preservo como um tesouro até hoje”. Falando com conhecimento de causa, a autora explica que “no ambiente da prostituição todos desempenham o seu personagem”. Os bastidores dessa realidade estão descritos no livro “Entre as Fronteiras”.

O preço da prostituição é a alma

Mesmo ganhando muito dinheiro com a prostituição, Mariana garante que o preço que se paga é também muito alto. “Tudo custa caro e, mais do que isso, a prostituição deixa uma cicatriz na alma”, afirma a autora. E foi na busca da paz interior que ela decidiu deixar as ruas. “Minha mudança de vida foi uma conseqüência do meu amadurecimento, a evolução natural de um ser humano que luta para manter o equilíbrio, mas não bastou.”

Escrever o diário foi uma das formas que Mariana encontrou para externar seus sentimentos, “tirar de dentro o que me fazia tanto mal”. Dessa coletânea de registros nasceu a idéia de fazer o livro “Entre as Fronteiras”, concretizado em 1997. Com o manuscrito pronto, Mariana saiu à procura de uma forma de publicá-lo.

É nesse ponto da história, já em 1999, que surge Paulo Coelho. “Quando soube através de uma revista que ele participaria do Festival de Literatura de Mantova (Itália), fui até lá, com a intenção de pedir sua ajuda e principalmente sua opinião sobre meu trabalho”, conta. Para chamar a atenção do autor, Mariana fez um cartaz com os dizeres: “Realize meu sonho. Fale comigo um minuto, por favor”. O encontro não foi possível, mas ela conseguiu deixar o manuscrito no quarto de Coelho.

A primeira resposta que obteve, diretamente da editora de Paulo Coelho no Brasil, foi desanimadora: não era possível publicar o livro. Meses depois, foi o próprio autor de “Onze Minutos” que fez contato, dizendo que adorou a história e propondo um encontro, durante sua passagem por Zurique. Os dois se encontraram e Coelho pediu que ela o levasse à rua onde ambientara parte do livro. Nesse dia surgiu a gênese do livro que Coelho lançou, meses depois. O encontro dos dois rendeu também muita popularidade ao autor no meio da prostituição.

O sonho se realiza

Quando recebeu o recém-publicado “Onze Minutos”, Mariana reconheceu na história trechos de suas anotações. Era o impulso que faltava para uma nova tentativa de publicação do seu livro, desta vez com sucesso. Mariana está convencida de que “nada acontece por acaso. Meu encontro com Paulo foi muito bom para ambos. Assim nasceram dois livros, dois trabalhos sobre um assunto tão polêmico como a prostituição”.

Para quem sustenta que a autora embarcou no sucesso do Mago para lançar seu livro, Mariana responde que “Entre as Fronteiras” nasceu muito antes de “Onze Minutos”. “O fato de Paulo Coelho ter-me oferecido o prefácio do meu livro certamente abriu muitas portas e está fazendo com que minha mensagem de ‘alerta’ chegue a um número muito maior de pessoas e em breve também no cinema”, complementa. A autora afirma que seu livro “não nasceu para terminar numa gaveta, onde ficou por tanto tempo e não me incomodava”.

Sem críticas diretas ao autor de “Onze Minutos”, Mariana faz questão de enfatizar que as duas obras são trabalhos distintos, escritos sob pontos de vista diferentes. “Entre as Fronteiras”, segundo a autora, “fala de dentro, não a minha biografia, e sim um misto de ficção e realidade, baseado em fatos reais”. O objetivo de Mariana ao publicar a sua versão da história é servir de alerta para as meninas que pensam em entrar para a prostituição. “A vida é uma dádiva belíssima de Deus para com os homens, não é justo desperdiçá-la. Quem profana o corpo, violenta a alma”, assegura.

(Irene Zwetsch) - CIGA-Informando 26, Fevereiro 2004