Orquestra de Basel toca composição brasileira

Em seu próximo concerto, no dia 11 de fevereiro, a Orquestra de Basel (www.aob.ch) tocará uma obra inédita do músico e compositor brasileiro Frederico Zimmermann Aranha. Isso não aconteceu por acaso. Como a Orquestra queria o grupo Cello a Quatro (quarteto de violoncelos) como solista no concerto e não existia composição original escrita para orquestra e 4 violoncelos, Monica Correa, violoncelista brasileira que toca no grupo, sugeriu pedir ao amigo Frederico que escrevesse algo. O maestro Raphael Immoos gostou da idéia e num “piscar de olhos” a composição estava pronta.

O Concerto para Quarteto de Violoncelos e Orquestra Sinfônica foi escrito na arquitetura convencional dos concertos clássicos (Allegro, Adagio, Rondó) porém usando idiomas diferentes e procurando principalmente mostrar a influência da cultura musical germânica sobre a brasileira. A construção do concerto partiu de um tema escrito há quatro ou cinco anos (o Réquiem Para Amadeus), que até hoje não fora mostrado a ninguém. Esse tema é o mesmo usado nos três movimentos. Segundo o compositor, sua preocupação principal foi "simplesmente fazer os ouvintes gostarem de ouvir e os músicos sentirem prazer de tocar”. E o concerto ficou assim:

  1. Samba de Doze Notas Só - com rítmica afro-brasileira e melodia em contraponto serial total cromático, segundo a técnica de Ernst Krénèk; o título é uma brincadeira com o "Samba de Uma Nota Só", de Antonio Carlos Jobim;
  2. Quarteto e Réquiem Para Amadeus - começa com um prelúdio só com o quarteto de cellos e emenda com um réquiem onde o compositor expõe sua tristeza e seu lamento por fazer parte de uma humanidade que permitiu que o maior gênio musical de todos os tempos tenha sido enterrado como indigente.
  3. Forró Em Basel - baião típico, conforme surgiu nos bailes "for all" do Nordeste brasileiro em meados do século passado, onde se fundiram coisas do jazz com nosso folclore. Foi escrito no modo mixolídio e pensado para que as quatro cellistas possam mostrar suas qualidades virtuosísticas. Para o compositor esse não é o movimento mais difícil de ser executado, mas com certeza é aquele que talvez causará melhor impressão na audiência.

O compositor afirma que escreveu esse concerto pensando antes de tudo que “não adianta nada um brasileiro escrever uma peça assim tentando fazer aquilo que os europeus, particularmente os germânicos, já fazem e fizeram insuperavelmente na História da Música. Então resolvi ser mesmo o que eu sou: um compositor erudito (mas que também viveu anos fazendo música popular e jazz) bra-si-lei-ro. Me preocupei o tempo todo em tentar fazer uma coisa que fosse ouvida com prazer por um público qualquer mas principalmente por europeus”.

Frederico Zimmermann Aranha fala sobre si

Logo que eu nasci minha mãe percebeu que eu tinha mãos de cirurgião, mas meu pai achou que eu tinha olhos de oftalmologista. Já os meus tios achavam que eu tinha orelhas de otorrino, joelhos de ortopedista ou barriga de gastroenterologista. Só minha madrinha discordava de tudo: era óbvio que eu respirava como um pneumologista. Daí que, embora nunca ninguém tivesse dito que eu devia ser médico, fui sempre estudando na direção da área médica.

Meu pai era escrevente de cartório e violinista amador. Tocava um pouco desafinado, pois quase não tinha tempo de pegar no instrumento.Trabalhava feito um mouro para pagar um bom colégio aos filhos. Minha mãe cantava bem e, embora tivesse chegado ao nível universitário antes de casar, escolheu a mais difícil e mal remunerada de todas as profissões jamais inventadas: mãe.

Ao chegar no vestibular de Medicina eu já tocava um pouquinho de piano e tinha descoberto que violão era quase tão bom quanto sexo, com uma vantagem muito importante: o violão nunca tinha dor de cabeça e nunca reclamava de nada. Como eu não tinha o menor ânimo para estudar Física, Biologia e as outras matérias do exame, acabei entrando na minha 7ª opção da lista de faculdades: Medicina Veterinária. Tentei durante um ano, o suficiente para descobrir que eu adorava bichos, só que no Jardim Zoológico e no Geographic Channel. Fui um aluno medíocre, mas em compensação meu violão melhorou muito nesse ano.

Minha irmã cursava Advocacia e meu irmão Engenharia, ambos na USP. Depois de todos os anos de enorme sacrifício dos meus Velhos, como é que eu ia chegar para eles e dizer que ia ser músico de jazz? Bem: fiz novo vestibular e entrei na Faculdade de Medicina (humana, dessa vez) em Botucatu. Após 22 dias de aula, me ocorreu que viver no mínimo 6 anos numa província seria impossível, eu morreria de tédio muito antes disso. E agora? Fiz novo vestibular e fui estudar História, também na USP. Além de gostar das matérias, eu tinha tempo de sobra para continuar tocando nos barzinhos, compor minhas canções, estudar harmonia, namorar bastante e, principalmente, lutar contra a ditadura fascista que tivemos entre 1964 e 1982.

E virei músico, num país em que essa profissão vem logo abaixo de lavador de latrinas, ao menos para quem seja rigorosamente honesto em seu compromisso existencial com a Arte. E eu já sabia, quando saí da faculdade, que não poderia ser feliz fazendo qualquer outra coisa que não fosse Música. Mais: só faço aquilo que eu quero, quando quero, como quero, onde quero e porque quero; em resumo, só faço música porque amo a música. É por isso que meu automóvel é um velho Chevrolet 1989, mas é também por isso que tenho gasto intensamente a minha vida fazendo só o que me dá prazer e sobrevivendo somente da minha profissão.

Nunca fui violonista clássico, embora tenha estudado as técnicas espanholas. Toquei muito jazz, tive bandas de blues, muita bossa nova, tangos e boleros. Toquei em rádio, TV, teatro, boate, cabaret, circo, bordel, praça pública. Fiz de tudo, mas sempre fui, basicamente, arranjador e compositor. Odeio reger. Tendo tocado durante quase 30 anos, hoje tenho uma enorme preguiça de pegar o violão. Gasta-se muito tempo e trabalho para estudar o suficiente, e eu sempre acabo largando o instrumento para pegar a caneta.

Nunca toquei fora do Brasil. Meu único professor renomado foi mesmo Koellreutter. Estudava com ele 1 ano, ficávamos de mal por 1 ano, depois fazíamos as pazes, e assim durante mais de 12 anos, ou seja: sou o típico autodidata. Fiz com ele e minha mulher, Maria Emília, concertista de piano uma série de 12 programas na Rádio Cultura FM -- "Ouvido e Consciência", coisa de Primeiro Mundo.

Tive duas indicações para o Prêmio Sharp (que é somente brasileiro) como melhor arranjador. Na Europa, apenas o Trio Basso Köln e o quarteto Cello a Quatro tocaram coisas minhas. Nos Estados Unidos dois violonistas tocaram minhas peças, em Boston e Nova York. Ou seja: 99% de todas as minhas composições, em 43 anos como músico profissional, são inéditas, inclusive dois concertos para piano, um para cello e flauta, um para cravo, um para duo de violões e um para maestro. De tudo que fiz, a invenção de um novo contraponto (apotonal) é o que julgo mais importante do ponto de vista teórico.

Hoje moro numa linda cidade praieira e só dou aulas de violão para crianças. Tenho um curso pronto de História da Música, com milhares de imagens e centenas de gravações, porém ainda não achei ninguém interessado, nem mesmo na Universidade de Taubaté, próxima daqui. Quando chego perto de desesperar, lembro que Mozart foi enterrado como indigente. Aí, em vez de chorar de desgosto, fico com muita raiva e escrevo mais música. E lembro a definição de Koellreutter: música é.

(Frederico Zimmermann Aranha, editado por Irene Zwetsch), CIGA-Informando 38, Janeiro 2006